Economia de baixo contato.

Economia de baixo contato.

Em um curto espaço de tempo, em função da situação resultante da pandemia viral, muitas mudanças estão em cursos. Algumas coisas novas com certeza, mas talvez seja mais justo pensar que o que estamos presenciando seja a aceleração de várias tendências e processos que na verdade já estavam em andamento. Alguns até mesmo de longa data.

Neste breve texto chamamos a atenção para algumas tendências importantes que estão em curso. Aqui lançamos mão de um interessante material disponível através do Board of Innovation.

Algumas consequências imediatas deste momento peculiar são mais diretas, como restrições para viajar, requisitos de higiene e proteção de grupos vulneráveis e reuniões remotas. Muitos dos novos hábitos e comportamentos vão permanecer, em maior ou menor escala, como o trabalho, o “novo” equilíbrio entre trabalho/vida pessoal e o acesso ao comércio eletrônico e vários processos de logística. Inúmeros novos processos relacionados à saúde em um ambiente virtual – a saúde eletrônica – devem ganhar impulso. A telemedicina deve ser parte disso também.

Se por um lado muitas coisas parecem e realmente estão paradas, outras coisas e processos estão progredindo em um ritmo frenético na busca constante de setores e indústrias por inovação e oportunidades de mercado. As melhores práticas serão copiadas para outras regiões e indústrias. Existem claras evidências do passado, inclusive resultantes da última crise econômica global de 2008, que as empresas que investiram mais em pesquisa e desenvolvimento antes e durante as crises, foram as que inequivocamente tiveram mais sucesso nos períodos de recuperação com ganhos significativos de participação no mercado (market share). Pessoas e organizações descobrirão os benefícios de uma nova maneira de viver e trabalhar, desafiando os negócios tradicionais e normas de estilo de vida.

Alguns desafios que não são novos se tornaram mais prementes:

Do ponto de vista geopolítico o protecionismo deve aumentar. Um comércio internacional próspero sempre aumenta a riqueza média do mundo. Por outro lado, alguns sérios e acelerados desequilíbrios como os gerados pelas relações mercantis da China com várias outras nações poderão ser reconsideradas e reconstruídas em bases mais corretas e prudentes. Outro ponto importante ligado ao protecionismo, simultaneamente como causa e efeito do mesmo, é a tendência de menos globalismo e mais nacionalismo. Se prevalecer o bom senso isso não seria um problema desde que se compreenda que os dois conceitos/princípios são complementares e não mutuamente excludentes. Basta olhar a história para ter uma visão cristalina das consequências do contrário.

O Brasil, como já comentamos aqui em textos anteriores é, relativamente a vários outros países, uma economia bem mais fechada. Ao mesmo tempo e como contrapartida o país possui um mercado interno não somente grande em tamanho, mas ainda com um potencial importante de crescimento. Além disso parte significativa de nossas exportações são commodities alimentares cuja importância para diversos países importadores é de tal monta que se sobrepõe a muitas barreiras comerciais tradicionais. 

Do ponto de vista macroeconômico, a questão do acesso limitado ao capital é também um desafio. O setor financeiro privado nestes momentos se recolhe prudencialmente em função da elevação do risco de prover crédito (é o chamado credit crunch). A intervenção do estado em praticamente todos os países deverá ser significativa e determinante, mas tem um limite além do qual tornar-se-á uma solução mortal para qualquer economia. Perda de credibilidade e escalada inflacionária (a inflação é o pior dos impostos que incide, sobretudo e perversamente, sobre os menos favorecidos).

O trabalho de uma forma geral será otimizado de forma acelerada a partir de configurações domésticas, além dos trabalhos típicos de escritório. O lar assume um novo significado e indivíduos e famílias descobrirão e desenvolverão em novas maneiras de equilibrar suas necessidades de vida profissional dentro dos limites do seu espaço. Empresas com menos recursos poderão reduzir espaço no escritório e infraestrutura. Muito além de uma “segunda tela” as pessoas vão provavelmente trazer para seu espaço próprio equipamentos especiais, máquinas, equipamentos avançados e configurações de vídeo/áudio para acomodar essa alteração no estilo de vida. Mesmo o sistema educacional poderá ser repensado em alguns aspectos de sua infraestrutura visto que eventuais limitações de espaço poderão ser superadas a partir da otimização de atividades presenciais combinadas com atividades de uso tecnológico intensivo incluído o “ensino presencial remoto”.

Novas leis de privacidade, aperfeiçoamento de leis existente e sobretudo mecanismos e processos efetivos para sua eficácia vão se tornar ainda mais relevantes. A questão aqui é inclusive de funcionalidade e segurança institucional do Estado Liberal Democrático de Direito que prevalece nas economias ditas “ocidentais”. A privacidade e a liberdade são fundamentos “pétreos” de democracias verdadeiras.

Sob o ponto de vista tecnológico, é evidente a priorização de tudo o que facilitar o “Tudo Sem Contato”. No contexto das indústrias tradicionais já estávamos vendo uma “disruptura”na cadeia de suprimentos e este processo vai se acelerar ainda mais. É interessante aqui refletir um pouco sobre como a economia funciona quase como a própria natureza. Uma mudança em um “ecossistema” acaba influenciado outros e, em alguns casos, de forma significativa. O exemplo é simples: se o transporte de passageiros teve um impacto negativo altíssimo e por prazo indeterminado, o de cargas tende a ter um aumento substancial e sustentável a longo prazo.

Muitas empresas de varejo e distribuidores de produtos precisará mudar a estrutura de entrega. O varejo regular não vai evidentemente se vaporizar, mas vai evoluir. Podemos esperar soluções de entrega mais especializadas (por exemplo, pontos de entrega para alimentos congelados/resfriados). Também mais otimizações avançadas da cadeia de suprimentos – por exemplo, várias lojas agrupando entregas para uma mesma região ou rua.

Na atual situação, viagens e turismo estão vivenciando um dos maiores impactos como indústria. Condições que guardam semelhanças literais com períodos de guerra. Viajar parece um risco para consumidores que talvez não consigam voltar a sua casa ou não têm certeza se poderão obter cobertura e proteção em eventualidades que ocorram em terra estrangeira. Às vezes, não nos damos conta de que o turismo é uma das maiores indústrias do mundo. Em países com a França e a Espanha chegam a ser o setor de maior peso nos respectivos PIB (Produto Interno Bruto). O Brasil que nunca conseguiu explorar muito bem este potencial, terá, justamente por isso, um impacto menor ainda que relevante sob o ponto de vista do PIB.  O turismo local tende a ser priorizado. Surge a possibilidade de potencialmente combinar viagens com trabalho remoto. O rural e o remoto poderão se tornar “escapadas” de luxo.

Além do setor turismo outros setores terão de se adaptar rapidamente a impactos severos. Muitos com a característica comum de significar grande aglomeração de pessoas. Alimentação (bares e restaurantes), eventos (música, shows, etc), esportes e bebidas. O setor varejista terá de se repensar em muitos aspectos. Aqui caberia também uma palavra sobre o setor automotivo, sobretudo pela sua extensa cadeia de valor e impacto no PIB de qualquer país. A questão aqui vai muito além da migração tecnológica para veículos híbridos e elétricos já vem acontecendo inevitavelmente. Novas tecnologias implicam em menos peças e maior durabilidade afetando dramaticamente fornecedores de peças e manutenção. Aqui podemos estar começando a ver o gatilho que poderá dar início a uma mudança cultural relacionada ao próprio uso tradicional de veículos individuais. Se não nos seus atrativos apreciados, pelo menos na intensidade e direcionamento de seu uso. E esse desafio é de difícil dimensionamento.

As oportunidades para o setor de infraestrutura continuarão muito importantes. Aqui tudo o que contribui para aprimoramento logístico de uma economia, a questão energética e saneamento básico deverão ser priorizados tanto pela iniciativa privada como pelo setor público. Inclusive pelo impacto de geração de empregos e por ser um dos setores que mais capacidade tem de absorver um imenso contingente de mão de obra menos qualificada. O setor também faz parte do setor de saúde naquilo que concerne a sua estrutura física. A saúde por sua vez, incluindo nela o setor farmacêutico, se já era a menina dos olhos de inúmeros investidores, terá sua priorização acelerada de maneira significativa. Prédios comerciais, por outro lado, podem perder valor assim como os alugueis deles derivados. Exatamente por isso, para alguns, este pode ser um momento de relevantes oportunidades.

Porém, de todos e de longe o maior desafio e o maior risco, é a probabilidade de alcançarmos níveis sem precedentes de desemprego global. Muitos serão forçados a repensar sua carreira, pois mudar para outro concorrente em dificuldades na mesma indústria nem sequer é uma opção. Educação, treinamento e diversas formas de treinamento remoto terão um pico. E não estamos falando de ensino a distância. As soluções aqui claramente terão de ir muito além do tradicional ensino presencial ou do tradicional EAD (ensino a distância), se tornando um campo precioso para inovações. Do mesmo modo, muitos podem buscar atividades relacionadas a empresas/negócios paralelos para aumentar seu orçamento familiar. Ambas as opções trarão uma experiência valiosa uma vez que a recuperação econômica tenha retornado. Aqui é preciso chamar a atenção mais uma vez (já havia mencionado isso em texto anterior) para um ponto da maior relevância a nível global. A questão da renda mínima. Aqui, recorro ao Professor Harari da Universidade de Jerusalém. Estamos falando potencialmente de quase um bilhão de pessoas que não tem os meios para se inserir no novo contexto que estávamos já vivendo, mas que se acelerou e se tornou explícito como nunca antes. É o que Harari chama de “os inúteis” (the useless). Evidentemente não inúteis sob o ponto de vista humano, pessoal e familiar, mas pela possibilidade de serem absorvidos pelas realidades e demandas do novo cenário e da “nova economia” que se delineia. Como resolver isso está longe de ser fácil e nenhuma nação tem meios de emitir moeda indefinidamente sem ter um lastro na capacidade real de sua economia gerar riquezas reais.

Juntamente com os impactos econômicos de curto prazo isso traz em seu bojo tensão e conflitos. Muitas organizações e pessoas estão operando em modo de sobrevivência. Enquanto isso, muitos podem violar contratos, compromissos eu regulamentos ao longo do caminho. Como aponta o Board of Innovation as tendências de pesquisa do Google já mostraram um pico para “Força Maior” (force majeure). Batalhas legais terão incrementos vários lugares, setores e circunstancias. Ao mesmo tempo, advogados estão mudando para uma maneira digital de trabalhar. Isso vai acionar mais ferramentas para automatizar o trabalho legal para operar em escala.

Neste último contexto, mas indo além dele, não podemos subestimar as questões de saúde mental das pessoas nesta nova realidade. Alguns países mais avançados como o Reino Unido e a França estão tratando isso de forma mais incisiva como uma seria questão de saúde pública. Estamos falando, dentre outros, de problemas relacionados à ansiedade, solidão e depressão. Infelizmente, muitas pessoas se sentirão mais isoladas, perderão o emprego e serão confrontadas com doença, enfrentarão problemas de relacionamento, podendo ter de fazê-lo em alguns casos ao mesmo tempo. Haverá uma tremenda necessidade de terapia e, mais uma vez treinamento. Incluindo em ambos os casos as opções remotas. Contato limitado com idosos também faz parte deste contexto. Até que uma vacina esteja disponível, a interação com essa faixa etária tem sido e continuará sendo severamente restringida. As pessoas, no geral, vão precisar repensar as reuniões sociais. Embora a adoção digital seja acelerada bastante em breve, serão as atividades diárias normais que precisarão ser redesenhadas (festas, cerimônias, etc).

Enfim, se por um lado os desafios são inúmeros e significativos, por outro lado, nunca a sociedade esteve, em diversos aspectos, tão preparada para enfrentá-los. A primeira coisa é ter consciência real das mudanças por parte da sociedade como um todo. Lideranças tanto no setor público, como no setor privado, têm aqui uma responsabilidade e um papel crucial a desempenhar. Soluções, mesmo que talvez nunca totalmente perfeitas, existem certamente para todos os desafios comentados ao longo deste texto.

Autor: Jose Antonio de Sousa Neto, Professor da EMGE (Escola de Engenharia de Minas Gerais)

Fonte: https://domtotal.com/noticia/1436725/2020/04/economia-de-baixo-contato/

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